31.5.10

o dia que apaguei os anjos

era mais um domingo
ele adora explorar esse dia
eu o conhecia muito bem
quem esperaria um soco dali?
mas isso não era garantia...

fui atingida em pleo voo
um bom conselho?
não confie nas asas de ninguém.
não havia nada a se fazer então...

lamentei a desilusão de um protetor
me lavei e enxaguei do cheiro dele
desfiz todas as conexões materiais
e enfim, fui andar sozinha.

quem era ele?
meu anjo da guarda.
só mais um pra me acertar
quando eu esperava proteção.

7.5.10

o fim em clausura

era uma vez uma ave.
raça indefinida.
talvez um misto de todas elas.
ela adorava cantar,
adorava voar.
não precisava viver presa.
ela tinha liberdade de ir e voltar
e ela sempre voltava.
no dia seguinte e no outro
e às vezes até nas noites.
ela tinha um rapaz por ela,
não tinha medo,
não era triste,
nunca estava só.
ela cantava o tempo todo,
pousava nas mãos do rapaz
e descansava.
dormia por perto,
acordava feliz.

eles tiveram um problema.
se afastaram.

agora ela não canta mais,
ela não voa pra canto algum,
ela tem medo,
e está o tempo todo em solidão.
ela não volta mais.
e o descanso,
deixou de existir.
ela dorme mal
ela acorda sem nem piar.
mas como ela venceria,
se o rapaz não abre mais as mãos?
como eles resolveriam o problema,
se ele não dorme mais por perto?

ela agora está sozinha
e não vai mudar isso.
nada de outros rapazes,
ou outros pássaros.

ela agora está voando baixo,
piando pouco,
sem cantar nunca,
e apavorada,
de reviver o que o rapaz,
não desistiu no princípio
nem no meio
mas no fim.
essa solidão,
dói mais que o problema
que ele, mesmo sem saber,
conseguiu enfim curar.

ela só queria voltar a cantar.
só queria voltar a voar.

6.5.10

eu meto medo

não. você não conhece
nem a metade do que eu sou
então não se apresse.
eu não tô te enviando sinais
pra que você possa ler meus atos
eu não tô te dando premissas
pra que você tire as suas conclusões.
se não entendeu, me pergunte
se não gostou, se expresse
se te magoou, me conte
eu não sou tão difícil de entender.
a questão é que eu meto medo
eu te apavoro, eu assusto
e eu até gosto.
é aquela sensação de controle
ou simplesmente de esconder...
esconder a raiva na piada
a felicidade no descaso
a ansiedade em chocolates.
e eu só te meto medo
porque você não conhece
nem a metade do que eu sou
eu só mudo de forma
porque essa é a minha forma
e eu aprendi coisas novas!
aprendi a ser eu
aprendi a gritar, a bater
a desistir, a ignorar
e aprendi a reconsiderar.
nada vale tão a pena
que se você der outra olhada,
continue valendo...
nada vale tão pouco
que se você der uma olhada
não valha o esforço.
fico feliz de saber
que você vai usar essas palavras
da maneira que bem entender.
só não esqueça que isso é pra você
e você e você e você e você...
então a todos vocês, meu muito obrigada
eu fui mais na metade que você quis ver
do que em toda a totalidade que eu
quis (e consegui!) te conhecer

prever nem é tão difícil assim
pode generalizar

1.5.10

as páginas dos dias (bipolares)

eu aprecio as linhas não escritas. inspiram o desejo de uma boa ideia em uma letra legível. o mesmo acontece com as manhãs de outro e mais um dia. quando minhas pupilas estão dilatadas demais, eu tenho nojo das páginas brancas. instigam a inércia de um medo paralisante em uma preguiça impaciente. o mesmo acontece quando finda o silêncio noturno e os irritantes primeiros raios de sol tentam inutilmente provocar a reação de contração nas pequenas esferas negras disfarçadas pela minha íris. o meio é sempre renovador. ele reflete o bom começo e incentiva um esforço para continuar. essas são tardes. frescas e promissoras. mas o meio também me derruba se o começo não é brilhante. costumo rasgar tudo, a folha e o dia, ou tentar o remendo. o problema dos remendos é que são sempre muito incertos. talvez imprevisíveis. daí eu precebo as linhas acabando e sinto alívio e desespero. bendita hora em que o que amanheceu mal, terminou, mas... o que fazer da noite? eu gosto do desgaste de um trabalho bem feito. eu me orgulho da atenção na escolha de cada palavra. linda noite. eu aprecio o dia bem escrito. já é noite, não usei muitos remendos e olhando agora, não. não vou rasgar o dia. ou a folha.

(escrito numa folha de um caderno de anotações qualquer)